A presidenta problema, as peças-problema de Shakespeare e a melhor série de comédia da atualidade

May 12, 2016

 

No debate filosófico entre o que é mais comum – a vida imitar a arte ou a arte imitar a vida – eu fico sempre com a segunda opção. Não que a arte não se baseie e nem deva se basear em fatos verídicos – acontece, acontece muito e, em muitos casos, os resultados são incríveis. Mas é que eu acho que a vida é sempre mais surreal e, por isso mesmo, mais ficcional num certo sentido. Vejamos: geral anda dizendo que o cenário político brasileiro está parecendo a série americana House of Cards. Não, migos. É a série que se inspira nas bizarrices da política mundial.  E acreditem: o Brasil provavelmente nem é a inspiração mais maluca. Sempre que alguém me diz que a vida está parecendo uma comédia romântica eu aviso: são as comédias românticas que se parecem com a sua vida. 


Mas Luiza, não faz diferença. Faz sim. Sabe por quê? Porque a boa ficção, seja ela na mídia que for, é aquela capaz de reproduzir sentimentos e personagens que existem do lado de cá. Não no sentido copy>paste da coisa, mas no sentido de causar algum tipo de identificação em quem lê/assiste. É o que uma escritora incrível me disse uma vez: você não precisa ter vivido todas as situações sobre as quais escreve – não é isso que Pound queria dizer com “write what you know” – mas você precisa ter sentido todas as coisas que escreve. Porque se você sentiu aquilo vai soar verdadeiro, e vai “bater” pras outras pessoas que já sentiram a mesma coisa. 


É que recentemente eu finalmente comecei a assistir Veep, aquela série em que a Julia Loiuse Dreyfus, de Seinfield, interpreta uma vice-presidente decorativa que só pensa em ascender ao trono maior da Casa Branca. Soa familiar? Pois é. Geral dizendo que o Brasil está parecendo com House of Cards, mas a série que representa mesmo o circo atual pra mim é Veep. Ah, Luiza, mas é comédia. Aham. Mas a boa comédia nunca é só comédia. Entra Shakespeare. 


Existem algumas peças do bardo que são classificadas pelos críticos como peças-problema. São aqueles textos que não se encaixam perfeitamente nas caixinhas de comédia ou drama. As peças-problema são fronteiriças, ora leves e cômicas, ora sombrias e intensas. Tragicômicas, no caso. O termo já existia desde Plauto, e é bom possível que Shakespeare tenha escrito essas peças híbridas de caso pensado. As mais famosas peças-problema são All's Well That Ends Well, Measure for Measure e Troilus and Cressida, mas o professor inglês que me introduziu a essa questão gostava mesmo da ambiguidade em The Winter’s Tale. A peça foi classificada primeiro como uma comédia, e mais tarde como um dos romances tardios. O fato é que sobram na histórias passagens hilárias e passagens tristíssimas, e a simples leitura me fez entender rapidinho o conceito de tragicomédia, e também a genialidade desse tipo de narrativa. Meu professor argumentava que as peças-problema eram as melhores, exatamente porque misturavam esses dois elementos essenciais. E, daí em diante, eu comecei a reparar nisso em tudo que leio/assisto. E procede. 


Voltemos a Veep então. A essa altura já deve ter ficado claro que pra mim ela é uma série-problema – no melhor dos sentidos. Eu já tinha meio que sacado isso quando, na segunda-feira, assistindo a um episódio da terceira temporada, eu recebi a confirmação que precisava da genialidade de tudo que a cerca. Ao descartar como um acessório mais um membro de sua equipe, Selina ironiza “Exit, pursued by a bear” (Sai, perseguido por um urso). A citação é a uma das cenas mais surreais e engraçadas da obra de Shakespare, saída justamente de The Winter’s Tale, e que marca a morte de Antígono fora de cena. Na peça, fica difícil dizer se a cena foi feita pra ser engraçada ou trágica, principalmente quando se sabe que no período elisabetano o ingresso para uma peça de teatro custava o mesmo que para um show de ursos, algo como um circo da época. 


Veep é cheia desses momentos. Momentos em que você fica na dúvida se é pra rir ou pra chorar. Percebi inclusive que não é à toa que tenho usado tanto a expressão “risos choros” pra reagir às notícias que me chegam do Planalto. É muito trágico, sim, mas também me causa riso, mesmo que seja nervoso, mesmo que seja pelo total surrealismo da coisa toda que sucede. Não da pra saber mesmo o que vai acontecer, e pode sempre piorar, claro. Por ora fico daqui torcendo para que um urso invada a residência oficial do Vice e persiga Michel Temer para fora de cena – pra sempre. 
 

 

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