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Fle-xi-ta-ri-a-na


Sempre que alguém batiza um novo “politicamente correto” eu passo por duas reações opostas e subsequentes: (1) Caralho, chega, não é possível, mais uma minoria não! (2) Eita, péra, calma. Isso é super plausível e inclusive acho que sou. É um cabíneo de guerra sem fim entre aquela parte de mim que acha que está na hora de parar com as desculpas pra ser esquisita e aquela outra parte que acha que o mundo vai ficando um lugar mais legal e mais espaçoso cada vez que a gente chuta mais uma portinha/muro.

A primeira vez que li a palavra demissexual num comentário de facebook acho que bufei e rolei os olhinhos. Agora estou aqui com quase 80% de certeza que sou. É tão mais fácil se abrir quando existem pares. Enfim.

Eis que estou começando a dizer pras pessoas que eu sou flexitariana. Ay senhor, que brega. Que desnecessário. Que frescura. Mas é que é muito longo dizer “Eu queria ser vegana, acho que o veganismo resolveria 80% dos problemas ambientais do mundo e é indiscutivelmente melhor pra saúde, mas não tenho condições de parar 100%, então sou tipo 85% vegana.”

Mas nãos seria mais fácil então não dizer nada? Porque ou você é, ou você não é, certo? Olha, desculpa, mas eu vou propor uma escala kinsey do veganismo. Risos. Não, mentira. Não precisamos de seis tipos de veganos sassaricando por aí, mas acho que dá pra adicionar um meio do caminho, tipo uma zona cinza mesmo. Porque eu quero falar sobre veganismo. Eu quero carregar essa bandeira, nem que seja de um jeito meio torto. Eu queria que mais pessoas se interessassem pelo assunto. Eu desejo um mundo cada vez mais vegano, de verdade.

Mas eu não consigo nunca mais comer caranguejo. Não consigo, não é transição. É desejo mesmo. Eu consigo nunca mais comer uma picanha. Mas coração de galinha tem dias que não dá. Eu sei o gosto dessas coisas. Se nunca tivesse comido tudo bem. Mas eu sei onde pega na língua quando você engole o primeiro pedacinho de gorgonzola. Se algum dia conseguirem sintetizar...

Enquanto isso eu patino ali entre 80 e 90%. Sei que sou uma decepção para muitos, mas estou em paz comigo mesma. Minha questão com o veganismo é de um viés ético e sustentável. Eu gostaria de ficar aqui no mundo mais um tempo, com alguma qualidade de vida, e eu sei que a gente tá cagando tudo com esse consumo bizarramente exagerado de produtos de origem animal. Estamos escravizando outras espécies e destruindo o ecossistema todo só pra criar uma comida que a gente podia passar sem. Ou com bem menos. Eu não tenho questões com matar um bicho pra sobreviver. Mas a gente não caça mais faz tempo. Se caçasse era outra história. Se criasse no quintal de casa era outra história. É o exagero que tá desandando tudo, e aí vem a razão deste texto. Ou o que motivou a anotação chapada que veio a ser este texto.

Quanto menos eu como produtos de origem animal, principalmente queijo e embutidos (alôu pizza), mais eu acho que essas coisas são meio que indecentemente gostosas. Tipo boas demais. Ilicitamente boas. Nível droga, sabe? Sério. Outro dia cheguei meio bêbada na casa da minha mãe e tive que enfrentar uma geladeira não vegana. Queijo, presunto, manteiga. Aqui em casa não tem mais essas coias, e não tendo eu passo muito bem. Bato um pratão de arroz, feijão e grão de bico com pimenta, ou um desqueijo quente e fico muito satisfeita, obrigada. Mas bêbada, olhando os laticínios e os embutidos, eu fraquejo.

Fiz um misto daqueles que a gente passa manteiga numa banda e requeijão na outra e comi lascivamente. Tem me dado de arder um pouco a garganta agora que eu quase nunca como, mas não chega a me inibir. Fiquei pensando que é mio como aquele boy todo errado na teoria, mas incontestável na cama – dá pra resistir até certo ponto, mas passou da terceira dose e o dedo coça na telinha do celular.

Não é transição, é pra sempre – lagostas serão lagostas e caras que sabem chupar serão caras que sabem chupar. Bocetas, no caso, não lagostas. Senhor, que piada horrível.

Então agora, quando me perguntam se eu sou vegana, eu respondo que não. Sou fle-xi-ta-ri-a-na. Espalhem que flexitariano é quem acha que o veganismo é o caminho, mas não tem força de vontade suficiente pra nunca mais comer presunto de parma.

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