Safety net

February 7, 2017

 

Sempre que sonho com a casa ela está ligeiramente diferente. Aquela coisa de sonho – você sabe que é, mas paira sobre o lugar ou a pessoa uma espécie de véu, de identidade secreta, de potencial pra universo paralelo. Importa que estávamos na casa – a casa, substantivo definido – essa que eu venho tentando escrever há anos. Essa que está emperrada no papel tanto quanto no meu estômago frágil. 

 

Estávamos lá; eu, você – meu novo interlocutor, que surpresa – e eu provava quimonos novos enquanto você me observava da cama, meio que lendo, meio que não. O quarto era grande, como são de verdade os quartos da casa, mas parecia estar no alto, o que não corresponde 100% à realidade. Era verão, isso é fato, e a gente era recente como é agora. Mas era cúmplice também, de outras vidas quem sabe, como me disse a astróloga. 

 

Acho que escolhi um quimono branco com franjas, e logo em seguida dei cabo ao showzinho particular que estava fazendo meio que só pra te provocar. Algo ou alguém me chamava na piscina, e era urgente que eu descesse – essas coisas de sonho. Você não precisava ir, eu disse. Na verdade era coisa minha, melhor que você ficasse no nosso castelo afastado. Foi o que me passou pela cabeça na hora, enfim. Eu então desci uma escadaria enooorme, bem surreal, só de biquíni, e lá embaixo estavam a minha mãe, um namorado dela que não é o atual e um casal que eu entendi estar ali pra ver a casa. Pra comprar.

 

[Eu ainda não mergulhei nessa piscina este ano e o meu corpo já dá vários sinais de abstinência. Não mergulhei porque não quis, é verdade. Por mim, por você, pelo rio e pela história que eu estou tentando construir aqui nos últimos três anos. Foi uma puta season finale, 2016, e eu precisei ficar. Mas agora me pego desejando mais que tudo aquele apagão sonoro entrecortado pelo tintilar das minhas medalhinhas batendo uma na outra debaixo d'água quando mergulho. A pedra quente debaixo dos pés segundos antes do pulo. A casa vista de dentro d'água, uma aquarela perfeita, um equilíbrio de cores sem rival. Não serve qualquer piscina, espero que esteja claro.]

 

Mas voltemos ao casal. Eu não odiei esse casal, o que de pronto já me pareceu bastante estranho. A sensação não era de estar sendo roubada de algo, mas de fluidez e continuidade. Fui com a cara deles e os convidei pra dar um mergulho comigo. Daí em diante lembro só de mim e desse reencontrar com a piscina, como se o meu papel nessa transação fosse sentir tudo de incrível que sempre sinto quando estou ali, e de alguma forma transmitir essas sensações pra eles, pra que entendessem o valor da casa. 

 

Nessa hora eu saquei que era sonho, como sempre acontece mais cedo ou mais tarde quando estou sonhando. Antes de apertar os olhos pra acordar – é esse o meu truque – lembrei de você no quarto grande, deitado na cama, me esperando, e entendi a simbologia toda da coisa. Tem sido bem fácil de entender tudo, o que não deveria me parecer tão impressionante considerando o conjunto da obra até aqui.

 

Sonho por sonho, frase por frase, ela vai saindo de mim e entrando na ficção. A rede de segurança que vai anestesiar o tombo está aqui e eu costurei com calma, com perseverança e com amor. Tá tudo pronto. 

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