[#throwbacknoo] Sobre o show do Chet Faker, hype e coragem

July 30, 2018

[texto postado originalmente em março de 2015 na extinta Revista Noo]

 

 

Muito antes dos ingressos pro show do Chet Faker esgotarem, muito mas muito antes de alguém perguntar na página do evento se os ingressos femininos e masculinos eram o mesmo preço (acaba, mundo?), e muito, mas muito muito antes de eu derramar umas lagriminhas durante “Talk is Cheap” na quinta passada, estávamos aqui em casa eu e algumas amigas num domingo à tarde.

 

Perguntei quem ia ao show e me surpreendi com o fato de que algumas meninas nem conheciam, então botei pra tocar. Cinco minutos e uma das amigas manda: “mas gente, isso é música pra foder!” Aham, super é. “Só vou nesse show se tiver com um gatinho pra poder ir pra casa depois e dar muito.” Aham, super seria legal. E eis que eu tive uma ideia: por que não vamos todas e apostamos quem leva o melhor date? Ou quem consegue levar um date at all, porque né – tempos difíceis. Não valeria peguete antigo/apaixonado nem amigo gay. Demos muita risada nesse dia, imaginando quem levaríamos e criando regrinhas absurdas, mas a verdade é que no fim das contas quase ninguém comprou ingresso, e a iminência do show foi minando a coragem das que realmente iriam. A minha pelo menos.

 

Enfim. Quinta-feira foi chegando e com ela o burburinho. Fazia tempo que um show aqui no Rio não dava tanto ibope, e que motherfucking circo que se armou! Pessoas mimimizando o fim dos ingressos, organizadores mimimizando a quantidade de pessoas mimimizando o fim dos ingressos, playboys oferecendo 300 conto num ingresso de um show de uma banda que eles provavelmente nem conheciam... e eu com aquela vontade de que nada disso tivesse acontecendo e o show fosse no Circo Voador, pequenino, como é de costume e como deveria ser no caso de um som tão intimista. Mas eu entendo – entendo todo mundo (menos o rapaz que perguntou se masculino e feminino era o mesmo preço, porque né, noção – é preciso ter noção).

 

Passei a semana inteira com uma mensagem escrita no bloco de notas, pro cara que eu realmente queria que fosse o meu date, mas fui incapaz de copiar, colar e apertar send no zap zap. E isso é sério, porque se nem digitando eu estava com coragem, imagina ao vivo. No fim das contas, uma das amigas chamou atenção para o fato de que o casting no dia estaria ótimo, e que, se as regras eram nossas, então poderíamos modificá-las, logo estava valendo se arranjar por lá mesmo. Fiz uma lista mental de quantos rapazes interessantes eu sabia que iriam. Uns vários. Ok. Ando com a sensação de que existe pelo menos uma meia dúzia de homens por quem eu poderia me apaixonar, mas aí eu vejo qualquer um dos seis ao vivo e quando percebo minhas perninhas já me levaram lá pro outro lado, ou pro banheiro, ou pra casa. Estou aceitando indicações de analista.

 

Chegamos na antiga The Week. Claro que ia ter fila. Não demora cinco minutos pra eu avistar a primeira mina de vestido de renda curto e salto alto fino. Uma ex boate gay, saltos finos, camisetas da reserva – eu estava ficando tonta. Foi quando avistei uma barraquinha de drinks do tipo “caipiroska, parafuso e capetão”. Olha, se algum dia eu tiver uma festa, vou medir o sucesso da mesma pela quantidade de carrocinhas de bebida vendendo capetão na porta. Acho que nem o Chet previa esse hype todo. Pelo menos a fila não demorou.

 

Entramos. Pegar lugar bom? Não, que isso, tu não tem 15 anos pra ficar lá se esmagando, né Luiza? Tá, vamos socializar. Área externa, cerveja, um béqui – claro que a minha pressão ia cair. E foi nesse momento (tem sido sempre nesse momento – quando estou mais chapada/bêbada/retardada) que o cara para quem eu não mandei o zap zap chegou. Fiz o que tenho feito: duas frases randômicas e uma saída estratégica para o banheiro. Alguém me ajuda?

 

Deu onze horas, deu onze e quinze e nada de show. Eu já estava esquecendo que ia ter show, na real. Estava me sentindo numa baladinha. Até que comecei a fazer meu papel de tia chata e pedir para que fôssemos, peloamordedeus, mais pra perto do palco. Ou pelo menos para algum lugar de onde eu pudesse ver o palco. Aí começou aquela cena clássica do “quem puxa o bonde?” Porque ninguém quer parecer preocupado demais com o show. Ninguém quer ir na frente. Ninguém tem 15 anos pra ficar se embrenhando em multidão. Ninguém quer se perder do grupinho dentro do qual a sua existência faz sentido nesse nosso microcosmos descolado carioca.

 

Devemos ter ficado mais uns 10 minutos fazendo menção de sair, até que alguém finalmente acabou com o meu sofrimento. É claro que nos separamos sem querer em dois grupos e é claro que eu fui parar num canto com dois casais e um bando de meninas solteiras semi-conhecidas minhas. Mas fui corajosa e cruzei a The Week para encontrar a outra metade do grupo, ainda que sem sucesso em esbarrar com quem eu queria esbarrar.

 

O show começou esquisito, sem banda. Eu sabia que a banda ia entrar, mas ficou uma vibe meio estranha, um som chato, repetitivo, ninguém entendendo nada. Até porque o grande público gosta de graves, não é mesmo? Bom, com a graça de jah, os graves entraram, os hits apareceram, os celulares foram levantados e tudo se desenrolou como no script. Tudo menos a nossa localização, que era péssima. Estávamos atrás da linha do som, rodeados de pessoas estranhas. Fiz um esforço pra abstrair e comecei a dançar, e foi nessa hora que uma das minhas amigonas me abraçou e disse: “estamos bem melhor sem os dates”. Concordei, mas duvidei.

 

Lá pelas tantas resolvemos que precisávamos de mais drinks e de uma realocação. Foi mais ou menos na hora em que rolou um intervalo meio nada a ver, tipo bem no meio do show. Pra mim um show rola direto até o final, depois tem uma pausa rápida, e aí o bis. Quem faz primeiro ato e segundo ato pra mim é teatro, mas enfim. Deu tempo da gente resolver subir pro mezanino, e de eu perceber uma movimentação em direção ao que parecia ser uma área vip, e foi aí que pra mim deu e eu resolvi me perder propositalmente. Tracei uma reta na direção do canto direito e escurinho do segundo andar e, pasmem, encontrei um espacinho na grade.

 

A segunda metade do show me empolgou muito mais, talvez porque o Chet tenha voltado mais animado, talvez porque eu estivesse num lugar onde o som era bem melhor e talvez porque eu tivesse finalmente parado de pensar na aposta e nos meus amigos. Já fui a tantos shows sozinha. Show pra mim é meio que igual a cinema: se não vamos conversar durante a atração, por que ir em comboio? Eu sei, eu sei, amigos são ótimos. Mas amigos também enchem a porra do saco às vezes.

 

Eu já estava quase declarando vitória, afinal hoje em dia quaisquer 15 minutos que você passe sozinho, em paz e curtindo muito a sua própria companhia já são 15 minutos especiais. Mas eu estava me esquecendo de uma musiquinha. Talk is cheap, my darling, e putaqueopariu, fazia tempo que eu não engasgava num show. Aproveitei que estava perdida e chorei mesmo, sem segurar. Não faz o menor sentido dominar tanto a linguagem se na hora H eu travo sempre. E também não adianta nada dar todo o mole do mundo se a outra pessoa está mais confusa que a minha lista de afazeres numa segunda-feira. Talk is cheap / you gotta feel it own your own. Chorei de alívio pela confirmação de que estou realmente a fim de alguém depois de tanto tempo, chorei de raiva por não ter tomado atitude absolutamente nenhuma e chorei porque é pra isso servem os shows ao vivo – pra te emocionar.

 

Ao fim e ao cabo, ninguém ganhou a aposta. Voltamos todas sozinhas e com sono pra casa, sem nem arriscar um after. Culpamos o eclipse – era um dia de descansar para o recomeço, para o ano novo astrológico. Cheguei em casa e capotei. Quando levantei pra fazer xixi, ainda bem cedinho, meu celular estava explodindo de ligações e mensagens. Minha avó havia falecido de madrugada. Meu primeiro pensamento foi: “imagina que merda se tivesse um boy aqui”.

 

Estamos nessa idade – vinte e muitos, trinta e poucos – idade de perder avós, de ter vergonha de ligar muito pra qualquer coisa, de pensar mil vezes antes de se apaixonar porque porra, todo mundo já se separou. E tá todo mundo tão machucado.

 

Acabei lembrando de um outro show épico e concorrido que rolou por aqui uns bons anos atrás: If you want me show some courage.

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