[#throwbacknoo] O que significa estar nu

August 10, 2018

 

 

No vestiário da academia você é aquela pessoa que tira a roupa toda sem o menor pudor ou aquela que entra em um dos cubículos para tomar banho e só sai de lá completamente vestida? Tudo bem se trocar na frente de amigos ou não? Nadar pelado e fazer topless: tranquilo ou nem mais ou menos? Ficar pelado na frente de pai e mãe: normal ou estranho? Posar nu para um projeto artístico: pode ser interessante ou deusmelivre? Praia de nudismo? Tenho feito essas perguntas a amigos e a heterogeneidade das respostas só prova que estes são tempos muito estranhos mesmo.

 

Aliás, acho que nunca houve uma época de tantas contradições com relação ao corpo, esteja ele vestido ou despido. Claro que cada década idolatrou e perseguiu um tipo diferente de shape, mas nunca com tanta intensidade e diversidade quanto agora. Temos obsessões diversas, da bunda gigante às modelos esquálidas e siliconadas, passando pelos homens com abdome trincado e barbas cheias – tem pra todos os gostos. Eu já disse (citando a incrível Naomi Wolf) em outra oportunidade que a obsessão com a magreza feminina é na verdade uma obsessão com a obediência feminina, com a necessidade de manter a mulher sob controle. E essa vergonha diretamente proporcional ao fascínio com novas maneiras de perder peso é sintomática da nossa relação maluca com o corpo na contemporaneidade. Estamos buscando a perfeição, mas são poucos os que se sentem realmente confortáveis em mostrar o corpo – modelos inclusas.

 

Porque a nudez, hoje, no mundo ocidental, representa uma coisa acima de todas as outras: sexualidade. Não era assim na antiguidade clássica, por exemplo, assim como não é assim para a maioria dos povos indígenas. Não era assim no período colonial, quando a nudez dos escravos e dos senhores e sinhás na frente destes era considerada normal, uma vez que o escravo era tido como menos que humano. Mas hoje é assim. O corpo nu, principalmente e especialmente o corpo nu da mulher, está relacionado ao desejo, ao proibido, ao “pecado”. Não à toa precisamos de campanhas e leis para naturalizar a amamentação em público, e temos que conviver com leis que criminalizam até hoje quem faz topless no Brasil. Aliás, se formos começar a falar de mamilos femininos, o texto vai ser só isso.

 

Importa agora o seguinte: nunca nos expusemos tanto (alôu redes sociais, selfies, nudes), mas também nunca fomos tão pudicos. Tanto que essa pauta só me foi sugerida porque mencionei na reunião que iria posar nua para um fotógrafo famoso. Mas pra quê, Luiza? Pra ter essas fotos, ué.  E você não vai ficar com vergonha? Não, ué – se não tenho vergonha de me abrir por escrito, também não tenho de tirar a roupa. São situações bastante correlatas, inclusive.

 

Aliás, uma série que ilustra isso bem demais é “302”, inspirada no livro homônimo do Jorge Bispo. As diretoras Daniela Gleiser e Joana Jabace acertaram muito no formato, colocando as histórias de vida das mulheres totalmente em primeiro plano, e não a nudez. É impressionante como o ato de tirar a roupa está sempre ligado à superação de algum medo ou trauma. E falar sobre o assunto é tão difícil quanto, se não for mais – tanto que muitas mulheres encaram bem as lentes do fotógrafo, mas choram na hora da entrevista. É difícil se abrir, no sentido literal e no figurado também. Fica a dica – a série é incrível.

 

Daí que, pensando nessas mil questões e no quanto a nudez é uma questão cultural que foi se modicando ao longo da história, percebi que uma tradição no caso não havia mudado, e permanecia quase intacta desde a Grécia antiga: a prática de desenho com modelos vivos. A prática de desenhar o corpo humano nu a partir da observação “ao vivo e a cores” permanece como parte importante da formação do artista desde a antiguidade até hoje, com períodos de maior ou menor popularidade. Todos os grandes mestres do renascimento se dedicaram a esse tipo de estudo. Rembrandt, que tinha um ateliê movimentado e sempre cheio de aprendizes, foi um dos grandes entusiastas do desenho de modelo vivo como método de ensino. Outros pintores conhecidos, como Picasso, Matisse e Degas também têm um acervo enorme de desenhos de nus, além de passagens interessantes em suas biografias sobre suas relações com os modelos.

 

 

 

Foi inclusive essa aproximação com uma tradição praticada por grandes mestres que alguns dos artistas contemporâneos que eu entrevistei mencionaram como o motivo de terem começado a desenhar modelos vivos. A antropóloga e ilustradora Karina Kuschnir me contou que acha o ritual emocionante, uma vez que que ele exige disciplina e dedicação do modelo, do professor e dos alunos. Disse ainda que sempre que começa uma aula de modelo vivo, como aluna, sente uma emoção especial, motivada principalmente pela conexão histórica desse momento com a formação de artistas por centenas de anos.

 

 

Descobri também que a relação do artista com o professor/mestre é extremamente importante, e que pouco vale ter modelo e luz apropriados se não tem uma pessoa ali ensinando. O grupo para o qual posei – risos, já vamos chegar lá – havia se conhecido nas (famosas) aulas de Lydio Bandeira de Mello, e Karina fala com muito carinho de seu mestre Manoel Fernandes, que agora dá aulas em São Paulo. Também há um curso bem conhecido no Parque Lage, apesar de eu ter ouvido por aí que pouca gente curte. Também ouvi boatos de que na PUC os modelos vivos precisam usar biquíni ou sunga de banho. Ahhh essa culpa cristã.

 

 

 

Mas então, vamos falar dessas pessoas que emprestam o corpo para o desenvolvimento artístico dos outros? Quer dizer, emprestam não, porque geralmente o trabalho do modelo é remunerado, apesar de não tão bem quanto deveria, na minha opinião. E opinar eu posso, porque eu fui lá e fiz. Estava em contato com a Giulia Del-Penho, que é modelo experiente e me foi apresentada por amigos em comum, quando me dei conta de que não queria apenas entrevistá-la, queria passar pela experiência também.

 

E assim fui parar num estúdio em Santa Teresa alguns domingos atrás. Seriam cinco pessoas me desenhando, o dono da casa me informou, e eu fiz questão de não perguntar o sexo dos envolvidos. No fim das contas compareceram só três, todos homens, dois deles bem da minha idade. Como foi? Cansativo é a primeira palavra que me vem em mente, seguida de estimulante. A real é que o fato de estar nua foi o que menos me incomodou e/ou passou pela minha cabeça durante as três horas em que estive ali. Fiquei noiada com o job – porque estava encarando aquilo como um job. Queria não estragar aquela sessão pra eles, queria fazer as poses direito, aguentar mais tempo, mexer menos, inventar poses mais interessantes. Enfim, queria contribuir e fazer o meu trabalho direito. E, claro, aproveitar pra fazer perguntas aos artistas.

 

 

 

A verdade é que não é nada fácil. Você sente frio, absolutamente qualquer pose que você tente vai começar a incomodar depois de 10 minutos (algumas depois de 10 segundos) e eu estava fazendo um esforço tão grande pra me sair bem que praticamente não consegui pensar na vida ou meditar, coisas que imaginei que fosse conseguir fazer. A Giulia me disse que com o tempo você se acostuma e consegue entrar num estado bem meditativo. Assim como eu, ela também se interessa em ver os desenhos que são feitos a partir da sua imagem. Acho que essa era a minha grande curiosidade, na real, e eu achei incrível me ver em traços tão distintos. Ela me contou que muitos estudantes não gostam dos próprios desenhos e os deixam pra trás na sessão, e que depois ela vai lá e pega. Algumas pessoas também dão os desenhos de presente pra ela, e ela guarda todos, inclusive pendurou alguns na parede.

 

Histórias inusitadas eu ouvi várias: a Giulia já quebrou o dedo durante uma sessão, a Karina contou de um modelo que teve uma ereção enquanto posava (mas ficou todo mundo deboas, na maior naturalidade). Também ouvi dizer que numa aula do Parque Lage chegou uma modelo que quis ficar de calcinha e sutiã e fazia poses como se estivesse num catálogo da Victoria's Secret... e todas as modelos com quem conversei disseram que já foram cantadas de uma forma ou de outra, mas nunca nada muito sério.

 

Outra unanimidade é a questão da energia e da atitude do modelo. Todos os artistas/aprendizes com quem conversei disseram que gostam de variar o objeto retratado, mas que quando curtem um em particular preferem ficar um tempo desenhando só essa pessoa. E esse curtir é algo bem subjetivo, que tem a ver com mil variáveis – a expressividade do rosto, os ângulos do corpo, o nível de dedicação da pessoa, o quanto ela está confortável naquela situação ou não. Uma coisa interessante que um dos rapazes que me desenhou disse é que ele não se sente desconfortável porque parece que nesse ambiente específico as regras da “vida real” não valem – é como se girasse uma chavinha e o corpo nu deixasse de ser uma coisa sexualizada e passasse a ser arte. Foi bem isso que eu senti.

 

Enfim, é um trabalho quase como outro qualquer, apesar da grande maioria das pessoas não ter coragem de fazer. Aliás, achei curioso que a Giulia tenha dito que as pessoas raramente a julgam por posar, mas elogiam sempre a sua coragem e acrescentam que jamais conseguiriam. É o que eu mais ouço também, mas com relação aos meus textos e ao nível de exposição a que me submeto neles.

 

Pois é. Coragem pra se expor – quem tem?

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