Third time’s a charm (Sobre o show do Baianasystem na Fundição)

May 27, 2019

 

 

A terceira vez é certeira, diz o ditado popular comum nos países de língua inglesa. Sinto que a frase é menos profética e mais um auto-incentivo, tipo “agora vai”, ou “sou brasileiro e não desisto nunca”. Pois que sábado último não foi o meu terceiro show do Baianasytem - foi o segundo. Então por que estou dando esta palestrinha? É que estou me referindo à terceira vez em que venho por meio desta internet escrever sobre um assunto provavelmente chato, mas do qual eu não canso - sobre sair sozinha pra baladas e shows, ou sobre a importância de calar a boquinha e dançar.

 

Sábado eu estava decidida a não me perder do pack. Nem propositalmente, como costuma ser o caso, nem sem querer. Estaria com amigas de Vitória que pouco vejo, e com a minha cunhada, que é parceirona de shows e aprecia esse momento de ficar quietinha e só dançar, então as perspectivas eram excelentes. Só que o universo me conhece, e já começou a noite me testando. Minha cunhada não quis partir pra Lapa na hora em que eu havia programado, e ela tinha toda a razão em não querer, visto que era seu aniversário e sua casa estava cheia de gente bêbada cantando no karaokê. Mas eu não sei esperar, e então me mandei sozinha, com planos de encontrar as amigas de Vitória. E encontrei

 

Entramos, pegamos bebida e, jahbless, como se o universo quisesse me recompensar pela saída no horário planejado, começou o show de abertura, do Tropikilazz, que eu curto quase mais que Baiana. Descemos pra pista, que ainda estava tranquilíssima, e ficamos lá rebolando na fresca, com nosso baldinho e nosso baseadinho. Esse pra mim foi o ponto alto da noite. Daí pra frente a pressão só foi subindo. Geral dando dedada em emidê, minhas migas querendo ir mais pro meio e pra frente do que já estávamos, e o Killaz segurando a virada do grave até o último segundo, tipo rave - nunca reclamei.

 

Só que aí ia começar o show do Baiana. No show de janeiro de 2018, ali na mesma Fundição, eu havia ficado o tempo inteiro no piso zero, pista, só que mais pro cantinho direito, e um tanto pra trás. Estava pistola, tipo ódio no coração, porque meu namorado da época inventou de arrumar confusão com um cara bem na hora em que o show começou e geral começou a pular e se estapear. Mandei ele segurar a onda que aquilo era normal, ele pistolou, eu pistolei, aquele drama desnecessário.

 

Desta vez eu estava literalmente na meiúca. Centro e fronte. Não sei o que estava imaginando que fosse acontecer. Não estava pensando muito, na real. Faltando uns 10 segundos pra começar, finalmente bateu: bróder, fodeu. Aguentei aproximadamente uma música e 30 segundos de outra ali no epicentro do caos. Caralho. Apenas para profissionais, amigos. E/ou para jovens. Eu não sou nem um nem outro. Depois fiquei pensando que se eu tivesse sóbria, ou se tivesse dado a dedada no saquinho, talvez tivesse aguentado. Mas semi chapadinha and relax do jeito que eu estava, minhas chances eram pouquíssimas.

 

Fui separada das minhas amigas por um literal redemoinho de gente, que me jogou uns bons metros pra esquerda. Sem contato visual com elas e já quase sem o meu top, me dei por vencida e fui cavando espaço entre os bravos (e bravas - as rodas mais punks pelas quais passei nesse trajeto eram todas puxadas por minas) até conseguir subir o primeiro degrau, depois o segundo, e finalmente chegar no recuo.

 

Peguei o celular pra ver se tinha mensagem da minha cunhada, e tinha. Ela disse que estava justamente perto da porta da esquerda, por onde eu tinha acabado de passar. Dei uma olhada, apenas um mar de gente se engalfinhando, deixei pra lá.

 

Comprei uma gelada e subi para um dos últimos andares da arquibancada. Lá em cima, grupinhos e casais se esbaldavam com espaço de sobra, beck em mãos, o som igualmente potente e uma vista linda do palco. Praticamente uma área vip, até sentei um pouquinho pra começar a escrever este texto. De cima o ritual parece ainda mais insano. Que ninguém nunca tenha se machucado sério num show da banda é muita proteção. Muito axé. Aliás, sobra axé pro Baiana, deve ser isso.

 

A banda homenageou duas vezes os estudantes e pendurou uma bandeira da UNE numa caixa de som, achei lindo e importante. Fiquei ali tentando identificar minhas migas na multidão, mandando good vibes pra que elas saíssem ilesas da catarse, até que obviamente minha paz foi interrompida por um homem branco héterotop fantasiado de alterna. Ahhhh, esse espécime. Frequenta o Bukowski, sabe? Pois é.

 

E aí beleza? Aham. Tá sozinha? Aham. Pô, não quer cia não? Cara, na real to aqui curtindo na minha mesmo, valeu? Pô gata, foi mal. Mas gostei da atitude, parabéns.

 

Parabéns. Pela. Atitude. O macho héterotop é uma piada pronta and sem graça. Esse pelo menos desistiu rápido, e ali eu fiquei, ora dançando, ora escorando na grade, até o fim do show. Saí antes do bis pra evitar a manada, e cruzei a Lapa sozinha e com a melhor cara de mau que consigo fazer para pegar um uber em frente à Sala Cecília Meirelles, que é o melhor ponto pra pegar uber, fica a dica da tia velha.

 

As três da manhã em ponto, depois de tomar um banho quente e tirar a maquiagem com óleo de coco, finalmente me encaixei na cama entre o boy e o catioro, curtindo o finzinho da onda do beck e ouvindo lá no fundo da cabeça uma música não do Baianasystem, mas de Daniela Mercury, baiana também, que eu tinha cantado no karaokê horas antes do show.  Respirar o amor, aspirando liberdade.

 

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