Fim do mundo, corte 5

June 13, 2017

Eu sou viciada em documentários semi-toscos da National Geographic e canais afins. Se envolver desastres naturais e/ou fim do mundo, melhor. Bota ET no meio e eu faço até pipoca. Outro dia fui sequestrada por um sobre o Krakatoa. O vulcão, sabe? Enquanto eu meio que durmo, meio que assisto, aos poucos a foto em preto e branco dos exploradores europeus que habitavam a ilha vai se transformando em nós dois, jovens escritores do século XIX numa aventura pelos trópicos. Você de fraque e ceroulas e eu com aqueles vestidos imensos de mil camadas, bebendo, fumando, escrevendo e vigiando o vulcão.


O fim chegaria numa noite agradável de agosto, durante um dos nossos habituais passeios pela praia. (A gente tem isso de preferir a praia durante a noite). Tudo começa com o silêncio. Depois os bichos entram numa espécie de euforia ou transe coletivo, e parecem acordar todos ao mesmo tempo. Chapados de amor e ópio, eu e você apenas nos abraçamos e observamos o horizonte. Até que ela surge, a primeira bola de fogo, imensa. E com ela o ruído mais alto da história. Os nativos correm prum lado e pro outro, organizando às pressas algum tipo de ritual. Nossos companheiros europeus se dividem entre os que rezam e os catatônicos. Eu e você somos os únicos que sorrimos. Esperamos a vida inteira por este momento. “Vamos virar pedra”, você diz, e eu tenho certeza de que essa foi a declaração de amor mais bonita que alguém já me fez. Penso em todos os casais eternizados lado a lado em Pompeia e enfio as mãos por dentro da sua camisa. “Você sabe o que acontece com o corpo humano quando ele é engolido por lava?” você me pergunta. Não sei, mas também não importa. 


Alheios ao caos que nos cerca, eu e você primeiro nos beijamos. Depois sentimos nossos corpos formigarem e coçarem um pouco, até ficarem leves, muito leves. E então vai ficando cada vez mais difícil de se mexer, e eu sinto os primeiros fios do seu cabelo endurecerem sobre o meu rosto. Só tenho tempo de deslocar a mão direita uns quinze centímetros mais pra cima, pra poder passar os próximos cento e trinta e dois anos com aquela sensação doce de onde o seu cabelo encontra com a sua nuca.

 

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