Não é que eu não gostasse de Solar Power. Eu só não tinha fumado maconha suficiente.

Uma resenha MUITO sentimental do show da Lorde no Vivo Rio





No dia do show da Lorde fazia um mês do meu casamento. Pouco mais de uma semana que eu e Pedro tínhamos retornado da lua de mel pra encontrar nosso apartamento semi destruído por uma obra que está rolando ao lado e que nos atormenta a vida desde o início do ano. Uma semana exata que estávamos morando num airbnb. Alguns dias que tinha resolvido voltar pra análise, incapaz de lidar sozinha com a minha ansiedade e a série monumental de cagadas que anda me acontecendo.


Eu já havia passado a oportunidade de ver alguns shows da Lorde no Brasil porque eles sempre aconteciam em festivais, e eu não transo muito festival. Já fui a vários, não é que odeie, mas pra mim festival é uma coisa que vale pela vibe, pela ambience, pelo rolê, mas você não vai ver o show da sua vida num megafestival. E aí eu prefiro não ir pra não me frustrar. Tem sempre fãs de outras bandas atrapalhando, é impossível chegar perto do palco, duas horas pra fazer xixi, três horas pra comer. Eu tenho 35 anos, sabe? Been there, done that. Os shows das bandas que amo prefiro ver em lugares menores, cobertos, escuros, com o som beeeem alto, só fã no recinto.


Então imaginem a alegria quando a minha cantora favorita da atualidade finalmente anunciou um show no Rio, no Vivo Rio, pequenino Vivo Rio. Fiquei muito feliz e comprei ingresso sozinha, sem ligar se alguém mais ia, desejando inclusive que ninguém fosse, porque show e cinema são coisas que eu prefiro mesmo ir sozinha. Furei meu bloqueio pessoal com esse rolê escroto e capitalista que é a tal da pista premium e comprei. Nem reparei que seria exato um mês depois do casamento.


Me arrumei pra sair trincando de ansiedade, fingindo beber um espumante que abrimos pra comemorar nosso 1 mês. Quinze minutos antes de sair, tive um estalo e pedi pro Pedro apertar um beckzinho preu levar. Fazia um mês que não fumava um, desde o casamento. Gosto muito de fumar em show, sentir o corpo relaxar, as ideias expandirem - as músicas batem de outro jeito, as sinapses são outras. Procurei um isqueiro, não achei. Fiz uma anotação mental pra comprar de um baleiro do lado de fora do Vivo Rio.


Obviamente esqueci. Esqueci não, minha ansiedade me atropelou, como sempre. O ansioso não descansa enquanto não completar todas as fases do joguinho. Pedir o uber, entrar no uber, chegar, achar a fila, entrar no lugar, comprar a camiseta da tour, comprar as cervejas, fazer xixi, achar a entrada da pista premium, entrar - tudo isso antes do show de abertura começar. Esse era o meu plano, o plano da ansiosa, da pessoa que precisa fazer tudo perfeito, estar no controle, nunca errar. Aí ela esquece o isqueiro e fica se martirizando.


Na entrada, mostrei o ingresso sem mostrar a identidade porque vi que só estavam pedindo comprovante de quem tava com meia. Sou velha, o meu era inteira, então fui passando. O segurança viu, perguntou “é inteira”, respondi que sim, fui andando, ele mandou parar: “quantos anos você tem?”. Eu sempre erro a minha idade, ou pelo menos demoro pra responder. Isso é normal? Ri alto, ele não riu. Finalmente respondi “35 moço, pelo amor de deus” e peguei a identidade pra provar. Ele riu também. Parabéns pros meus genes e pra Doutora Cris, minha dermato.


Achei o show do Japanese Breakfast chato demais. Já tinha ouvido umas músicas um dia antes, por recomendação de alguns amigos que disseram que era ótimo, mas não é pra mim não. Meio um tom só, totalmente enfadonho. Curti apenas uma música, a de encerramento do set, e nessa hora tinha encontrado minha astróloga, que também é cantora, e concordamos que só era boa porque parecia muito alguma coisa da virada dos anos 90 pros 2000, que também não conseguimos identificar, mas era quibadíssima. Enfim.


Findo o show do café da manhã japonês, meu plano era fazer xixi, pegar mais uma cerveja e pelo amor de jah encontrar um jovem com isqueiro. Dado momento avistei uma fumacinha, fui correndo na direção, quando cheguei era um adolescente fumando pen drive. Triste demais. Me perdi da astróloga e resolvi me embrenhar mais pra frente - já que paguei a pista premium, que pelo menos visse a Lorde de perto. Encontrei um buraquinho bom, relaxei e às 21:30 em ponto ela veio. Minha ideia era esperar “Stoned at the nail salon”, uma das poucas do Solar Power que eu realmente curto, pra tentar mendigar um isqueiro.


E foi aí eu entendi que aquele era um dia de sorte. “Stoned” foi a terceira música, se não me engano. Olhei em volta pra todas aqueles rostinhos jovens, inocentes, tomei coragem e mandei “mas será que ninguém tem um isqueiro pra gente fumar um beck não?”. Alguém tinha. Um rapaz gay muito fofo que estava à minha direita. Uma garota que estava na minha frente gritou “quero!”. Pronto, encontrei minha turma. Fumamos o beck quase todo, até porque era micro - Pedro estava com preguiça de desbelotar.


Dois minutos depois eu entendi tudo, e meus companheirinhos também. Solar Power é um disco pra se ouvir chapado, ou num estado de mais absoluto “bliss”, como a Alê me disse agora pouco no inbox. Não sei muito bem como traduzir bliss nesse contexto, mas fica ali no meio do caminho entre paz absoluta e transcendência. Confere? Esse show é uma experiência viajandona, com o perdão do vocabulário de maconheiro. Daí pra frente curti todas as músicas desse disco novo. Pure Heroine é um disco de rebeldia adolescente que celebra ser diferente. Melodrama é um coming of age de uma pop star solitária e de coração partido. Solar Power é a celebração de uma mulher adulta feliz, em paz, fumando seu bom beck, aproveitando o verão e refletindo sobre a vida. É radicalmente diferente dos outros dois porque a Ella certamente fez MUITA ANÁLISE e se curou de MUITA COISA no processo. E aí fica claro que esse show é um presente dela pros fãs. Ela atende pedidos, ela dá conselhos valiosíssimos, ela se diverte.


Antes de usar a palavra “bliss”, a Alê também tinha me dito que era uma experiência religiosa, e eu também concordei. Mais ainda se você pensa que uma grande experiência religiosa geralmente acontece em grupo, quando todo mundo entra no mesmo transe. É coletivo, mas ao mesmo tempo é extremamente particular. Toca onde cada pessoa precisa ser tocada. Mas só acontece porque tá todo mundo vendo que bateu em todo mundo. Tipo droga, não é mesmo? Pra mim, mais do que uma experiência religiosa, foi uma experiência psicanalítica. Vou tentar explicar por que. Mas quase dá no mesmo, na real. Se era um sermão, ela foi a sacerdotisa. Se era uma sessão, ela foi a analista.


Porque passado o primeiro terço do show, depois de “Ribs”, daquele emblemático “Feels so scary getting old”, hit desses em que todo mundo pula e canta, ela começou o primeiro papo reto com o público.


O papo era sobre se emocionar. Deixar-se emocionar. Segundo ela, à medida que vamos envelhecendo, vamos endurecendo e perdendo a capacidade de nos deixar atravessar completamente pelas emoções. A sensação era de que o sermão era pra mim. Chorei de soluçar. Ela encerrou dizendo “Let yourself be swept away by big emotions. That’s how you stay young forever.” E tome choro.


Essa não é a única música da Lorde que fala sobre medo de envelhecer e nesse show eu entendi o quão eficaz isso é - em vários níveis, aliás. Porque é um sentimento muito universal, e que não passa nunca. Você tem medo do fim da infância e de todas as grandes novidades da adolescência, depois tem medo do fim da adolescência e das responsabilidades que vêm a reboque, depois tome-lhe medo de enfrentar o fim da faculdade e esse segundo e cruel choque de realidade, o tal do emprego, morar sozinho, etc. Aí, quando você pensa que acabou, seus pais começam a envelhecer rápido demais. Rápido pra caralho, fora de controle, e os avós morrem se já não morreram e eis que de repente você tem rugas e aí envelhecer já nem é mais um probleminha, um ajuste - é olhar mesmo pra morte. Pesado demais, dona Lorde. E esperto demais também usar isso como uma temática permanente. Seus fãs vão envelhecendo sem “outgrow” o seu som.


Voltando pro show, não tinha contado, mas conto agora, que as minhas duas músicas favoritas da Lorde são “Bravado”, que é um lado B do Pure Heroine, e “A World Alone”, que encerra esse mesmo disco. Amo muitas do Melodrama também, tipo “Sober”, “Hard Feelings/Loveless”, mas enfim. Essas são minhas duas queridinhas e, no dia que comprei o ingresso, fui dar uma olhada nos setlists da turnê e elas estavam pouquíssimo, mas assim POUQUÍSSIMO mesmo cotadas pra rolar. Me resignei, até porque são muitos hits, mas fiquei torcendo em segredo.


E a sorte, essa que tem me evitado, sorriu pra mim. Faltando pouco mais de uma semana pro show, a Lorde me posta nos stories que está chocada com os fãs brasileiros, que fizeram uma ação maluca e conseguiram fazer de “Bravado” a música mais vendida daquele dia no iTunes. Como é que é? Eu não estou sozinha amando esse lado B? Não estava, amigos. E ela tocou. Tocou em São Paulo, o que me fez tremer nas bases de não tocar aqui, mas tocou aqui também. E porra, aí eu transcendi real.


Lá pelas tantas, depois de muitas risadas e piadinhas trocadas com meus jovens amigos maconheiros, resolvi perguntar seus nomes. Daniel e Fernanda. Queriam saber de onde eu era. Nessas horas acho sempre mais fácil dizer “daqui”, pra encurtar a história. Já vão fazer 18 anos que sou daqui. Só que aí eu devolvi a pergunta e não é que eles eram capixabas?! Sim, a vida, essa engraçadinha. De Vila Velha. Aí eu tive que me corrigir. Shows são lugares muito mágicos mesmo. Eles não se conheciam, tinham se conhecido ali no rolê. Eu precisava de um isqueiro e mudei completamente o show pros dois. E eles pra mim.


Chegamos a mais um momento papo sério do show e a segunda lição era sobre deixar coisas e pessoas irem embora. Sobre desapegar. De amores, de histórias, de ciclos. “Let things move past you”. E aí cantou a sofridíssima “Hard Feelings/Loveless”. Chorei mais três rios. Emendou essa parte mais triste do show com “Liability”, que é assim um assombro de música e foi cantada a plenos pulmões por todos os 4 mil presentes. Imagina o coraçãozinho da póbi.


Não sei se vocês sabem, mas a Lorde tem uma newsletter e é uma das coisas mais lindas que eu tenho o prazer de ler de vez em quando. Ela escreve como fala, dá pra ouvir a voz em cada frase, tem um talento muito muito nato pra escrita. Cada newsletter é uma flechada direto no centro do coração, porque ela se abre como se estivesse escrevendo pra uma amiga próxima, sabe? E quem acompanha de perto sabe que ela nunca se acostumou com a fama. Que tudo isso é e sempre será um pouco overwhelming pra ela. Fiquei pensando nisso enquanto ela repetia “You’re all gonna watch me disappear into the sun”. Como que lida com 4 mil (100 mil, em alguns shows) cantando uma parada que você escreveu, rasgando seu coração todo? Eu choro com gente que não me conhece lendo meus poemas, sabe? Que doidera.


Aí eis que hoje chegou uma newsletter escrita já quando ela estava em São Paulo, e destaco uma parte:


“I landed in Brasil a few hours ago. The pop star river runs — stumble half asleep into a waiting car, get to a lovely hotel room, eat some papaya off a gorgeous fruit plate, shower, crash out. I sit typing this at a wooden table near a window, looking out over Sao Paulo. A security guard waits in the hall outside my room. In total there are five men being paid to protect my body this week. I love coming to Brasil, and South America in general, and look forward to it for years. I can never believe the way the Brasilian kids took to my music, this kid from so far away somehow making sense to them, and the shows are totally electric and emotional and play on a loop in my brain for years. I love the food and the architecture and the trees. I’d be lying if I said it wasn’t a completely surreal feeling getting on a plane in one country with relative physical anonymity, and getting off in another to literal flash-using paparazzi and gorgeous crying kids. It happens for all of 10 days of a year, so I still think it’s sort of bizarre and eerie and a little bit fabulous, someone else’s life. I’m struck by how truly odd the notion of having a security guard is, still like something out of a movie to me, and how inextricably linked it is with coming to America. My first security guard met me at LAX and guided me through a scrum of autograph hunters with a gun tucked into his belt. Proper Dorothy not in Kansas any more moment. Today I feel like an exotic tropical fish, big slow blinks and gorgeous fins, and I’ll swim around and around in my little bowl until showtime.”


Essa mulher é muito analisada, Brasil Dá gosto de ver e agora eu amo o Solar Power por isso. Aliás, depois desse segundo momento “divã da Lorde” no show, eu gritei “LORDE ME ANALISA” e geral em volta riu demais. Foi gostoso.


Estávamos nos encaminhando pro fim do show, rolaram mais hits, “Solar Power”, “Royals”, essa segunda eu até dispenso, mas tenho uma anedota ótima sobre essa música que não posso desperdiçar: eu já dancei esse hit ao lado de vários membros da família real brasileira, num casamento. O DJ, gênio demais, meteu essa. E eles foram pro centro da pista se acabar de dançar “we’ll never be roooooyals”. Que momento.


A essa altura, já tinha rolado “Bravado”, já tinha rolado “Perfect Places”, então eu estava numa vibe o que vier é lucro. Sabia que 90% dos shows eram encerrados com “Team”. Mas aí a galera puxou um OLE OLE OLE OLÁ, LULÁ LULÁ, e acho que a Lorde se sentiu democrática. Porque eis que volta ao palco e diz que quer abrir uma votação pra música de encerramento. Uma dificuldade pra fazer a galera calar a boca, muita gente já gritando TEAM, até eu gritei TEAM, mas aí ela contou qual era a opção. “A world alone”. Gelei. Meus amiguinhos queriam “Team”. Pensei em conceder logo a derrota, mas eu também estava numa vibe democrática. Na hora do voto por aclamação, gritei com tudo que tinha dentro de mim e, pra minha surpresa, por alguns decibéis, deu pra perceber que “A world alone” venceu. Por pouco. Como nós vencemos o facismo algumas semanas atrás. Por um pentelho. Mas assim é a democracia, jahbless.


Nem chorar mais eu conseguia. Ouvi meu hino com o sorriso congelado no rosto, tanto que no dia seguinte acordei com dor na bochecha (e no resto do corpo todo, pois velha). Ela não voltou pra cantar “Team”. Uma lição sobre democracia, achei chic. Escolheu tá escolhido, jovens. Mas ninguém sofreu, acho. Foi um set impecável, uma noite pra história da minha vida. Voltei pra casa com a Bia, uma miga da época da Capitolina. Nos encontramos sem combinar na saída e foi tão gostoso ter uma duplinha pra voltar pra casa repercutindo tudo. Não me despedi de Fernanda e Daniel, nos perdemos naquele caos pós show. Mas sei que nunca vão esquecer a tia véia que levou maconha pro show da Lorde e mudou completamente a experiência pra eles. A vida é gostosa por causa desses momentinhos. Os perrengues, muros caídos, varandas concretadas, viagens canceladas e tudo mais que atrapalha a gente esquece super rápido.


Cheguei em casa pensando que talvez nem precisasse voltar pra análise. Depois obviamente me dei um corretivo. A análise está apenas recomeçando, Luiza. A Lorde só te entregou uns dois dedinhos mais preparada de volta pra Pérolla. E é isso.


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