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O que fazer se atrapalhamos quando estamos tentando ajudar - lições que aprendi com o feminismo




Quando escrevi o texto sobre exclusivismo no carnaval carioca ficou faltando uma parte importante, porém longa, que achei melhor deixar pra depois. E não há momento melhor que agora, durante a semana do 8 de março, que pra mim sempre foi e sempre será uma semana de luta. Isso porque eu devo inteiramente ao feminismo, principalmente ao feminismo negro, tudo que sei e internalizei sobre lugar de fala, branquitude e privilégios. E acho que tem muita gente precisando desse toque, então aí vai.


Não existe nada mais desesperador para um indivíduo progressista de esquerda do que ser informado que uma atitude/fala sua é preconceituosa. Eu sei porque já passei por isso algumas vezes. A primeira reação é sempre de negação. EU RACISTA? EU EXCLUDENTE? NUNCA! EU SOU O OPOSTO DISSO! É natural - estamos todos lutando contra a opressão das minorias, estamos todos do mesmo lado, estamos juntos na luta contra o fascismo, certo? Sim, até certo ponto dá pra dizer que estamos todos juntos.


Mas é só até a segunda página mesmo, porque as condições em que eu luto não são nem um pouco parecidas com as condições em que uma mana preta que nasceu e cresceu na periferia luta. Até aí é simples de aceitar também, no papel fica tudo lindo. O problema é quando o bagulho esbarra na gente. E aí vocês me permitam contar duas histórias meio longas.


No finalzinho de 2013, uma atriz carioca quase foi presa (acho que chegou a ser encaminhada pra viatura, não lembro detalhes) no arpoador por fazer topless. Ela era branca, conhecia muita gente, apesar de não ser super famosa, e o assunto gerou muita revolta, claro. Rapidamente um grupo de feministas (majoritariamente brancas, da ZS) se juntou e criou um movimento que ganhou proporções gigantescas, nacionais. Foi o Toplesszaço, lembram? Eu estava indo passar as festas de fim de ano em Vitória e me organizei com outra amiga capixaba para criarmos o evento lá. Foi um frisson imenso, rapidamente o evento no Facebook teve milhares de confirmações, a mídia não parava de falar sobre o assunto e a sensação que a gente tinha era de que íamos mudar o mundo, que isso teria um impacto imenso. Lembro da minha alegria quando um repórter de um grande jornal me ligou para me entrevistar sobre o assunto e ouviu tudo o que eu tinha pra dizer. Falei sobre feminismo, sobre a liberdade dos corpos femininos, sobre o absurdo que era o mamilo da mulher ser criminalizado, etc. A matéria saiu com uma foto minha linda (vestida) e tudo que eu tinha falado, ipsis litteris, foi publicado. Achei que estava prestando um grande serviço ao feminismo e me senti bem demais.


Nessa mesma época eu já estava escrevendo para a Capitolina, revista online (que depois deu origem a dois livros, publicados pela Seguinte) feita por garotas e para garotas. Foi a minha primeira experiência num coletivo horizontal e auto gerido e foi um MARCO na minha vida. Tínhamos entre 16 e vinte e poucos anos (eu era uma das mais velhas) e fazíamos um esforço imenso para que houvesse tanta representatividade quanto fosse possível. Pois bem. Assim que saiu a matéria sobre o toplesszaço, joguei no nosso grupinho de Facebook achando que estava arrasando, que minhas companheiras de revista iriam amar. E tomei um sacode das manas negras. Do jeito que puderam, umas na base do deboche mesmo, outras com mais paciência (hoje entendo que as duas formas são válidas), elas me explicaram que essa era uma pauta extremamente branca e bastante irrelevante se levarmos em conta a batalha diária das manas pretas por direitos e sobrevivência. Eu reagi mal a princípio. Pensei uai, mas eu sou branca, o topless é uma questão pra mim, não daria então pra eu fazer o meu e vocês fazerem o de vocês? Me explicaram que não, porque se eu organizo um evento de topless numa praia num bairro nobre da minha cidade, isso recebe uma atenção gigantesca. O jornal me liga e imprime tudinho que eu falo. Minha família me apoia. É muito fácil. Mas se uma mana preta convoca uma manifestação na periferia para reclamar do preço da passagem, ou de alguma chacina cometida pela polícia, simplesmente ninguém vai, a mídia não cobre e a polícia aparece só pra meter mais bala. Isso se ela tiver tempo de convocar a manifestação, porque é mais provável que esteja se matando de trabalhar pra sobreviver.


Mas aí faz o quê, Luiza? Deixa pra lá a questão dos peitos de fora na praia? Sim, deixa pra depois, quando todas já tivermos o básico garantido. E quando te chamarem pra falar em algum lugar, pra ocupar qualquer espaço, a trabalho ou não, você só vai se tiver gente preta junto. Não apenas “tocando, puxando”, mas se divertindo também. Se te derem espaço pra falar, ceda esse espaço. Ler Lélia Gonzalez também não atrapalha, viu?


Esse episódio do toplesszaço me abriu os olhos demais e sou eternamente grata por isso. Nesse dia eu entendi que dava pra atrapalhar tentando ajudar, e que mesmo querendo ser antirracista a gente acaba sendo racista algumas vezes. Se você é branco e não consegue admitir nem isso, fodeu. A nossa existência é racista, amigos. É o que você faz com isso que conta.


Recentemente, dentro de outro coletivo feminista do qual faço parte, passei por uma situação parecida. Eu tenho uma verve pisciana muito resolvedora de problemas, não posso ver um problema que quero resolver, sabe? Daí pra entrar na pira de white saviour é dois palito. E aí eu fui que nem um tratorzinho pra cima de uma situação que precisava ser resolvida com certa pressa, mas que envolvia uma mana preta de um bairro periférico. Ofereci mil ajudas, disse que podia pedir o Uber, passar ali, pegar aquilo, pipipi popopó … e acabei atropelando a pessoa no processo. Ela tinha total condições de resolver o problema sozinha e quem sou eu pra achar que ela não poderia, sabe? Quando ela me disse isso, eu desesperei. “Só estava tentando ajudar”. Pois é, mas acabei atrapalhando e dando mil gatilhos numa pessoa de quem eu gosto muito. Conversamos, pedi desculpas e ela resolveu sozinha a situação. Doeu em mim? Pra caralho. Mas sei que doeu nela muito mais.


Moral dessas duas histórias: se não está doendo, você não está abrindo mão de privilégio nenhum. Reconhecer privilégios e abrir mão deles é das coisas mais difíceis de se fazer na vida. Ser ativamente antirracista, anticapacitista, lutar por equidade de gênero nas trincheiras, ter experiências coletivas verdadeiramente horizontais e descentralizadas é DIFÍCIL PARA UM CARALHO. Se não está difícil, você não está fazendo direito. A boa notícia é que é difícil mas também é libertador.


Nas últimas semanas pensei muito sobre isso. O “dono do bloco” recebendo lá tantas críticas pertinentes e respondendo as pessoas com deboche, achando que por ser de esquerda, por ter amigos negros, está livre de ter ações excludentes. Fiquei pensando: “como que essa lição chegou pra mim e não chegou pra ele?”. E aí veio a grande sacada. Esses dois momentos importantes (e tantos outros) de aprendizado que tive aconteceram dentro de coletivos feministas horizontais e auto geridos.


Meninos and meninas: coloquem-se em situações parecidas. Diversidade não é o que vocês veem nas campanhas de carnaval das cervejas. Muito menos frequentar espaços periféricos uma vez por mês e postar foto no Instagram.




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